"Não sabendo que era impossível, foi lá e fez."Jean Cocteau

domingo, 5 de setembro de 2010

O Bobo Palhaço Plin



"Não entrei na trilha dos saltimbancos por acaso, nem para ser um reles
fazedor de graça. Eu queria consagrar a minha vida através de um imperioso
apelo vocacional. Mas as pessoas, com suas receitas de sucesso, sem nenhum
escrúpulo, sem nenhuma sensibilidade, vieram me falar de mil e um palhaços
geniais. Tem um que comove multidões ao aprisionar um raio de sol pra levar
pra casa...Tem um que faz balões de gás dançarem alegremente ao som de seu
trompete...Tem um que ridicularizou um tirano, um assassino sanguinário que
queria ser o senhor absoluto do mundo...Tem um comprido, de calça na canela,
arcado para a frente devido ao pesado fardo da indignação contra a
mecanização imposta ao homem moderno...
Tem o magro sonso...E o gordo ingênuo e bravo...
Tem os que dão piruetas, saltam, dão cambalhotas, levam
bofetões...Tem os que tocam música clássica em garrafas vazias penduradas
num varal...Tem outro... e outro... e outro...Tem aquele pobre palhaço louco
que andava pelas igrejas jogando malabares diante das imagens da Santa
Maria; esse, me disseram, morreu enforcado na cruz do Senhor Jesus Cristo,
numa catedral gótica...Escutei humilde a história de cada um desses
incríveis artistas que viajavam pelas vias da loucura. Saber desses
palhaços...para mim, Bobo Plin, um palhacinho de merda que começava a
engatinhar nos picadeiros mal iluminados das espeluncas...saber desses
palhaços só serviu para me tolher. Quanto mais eu sabia deles, mais e mais
Bobo Plin, o palhaço que eu queria ser, se enroscava nas minhas entranhas. A
referência esmagava minha intuição e provocava auto-censura. A comparação,
maldita inimiga da igualdade, fazia dos magníficos histriões elementos
inibidores da minha criatividade. Agora, Bobo Plin não quer saber da façanha
desses belos palhaços. Não quer vê-los. Nem quer saber de seus bigodes,
sapatões, guizos, pompoms, bolas, balões e babados. A magia dos grandes
artistas não pode ser ensinada; são segredos que se aprende com o coração.
Essa magia se manifesta quando se resolve fazer a própria alma. Para Bobo
Plin se irmanar com os grandes palhaços que luziram nos palcos e picadeiros
tem que se esquecer deles para sempre. Não pode recolher nenhuma indicação
deixada no caminho. Tem que andar sem bússola, na mais tenebrosa escuridão.
Qualquer brilho, qualquer estrela, qualquer sol, qualquer referencial vira
um ponto hipnótico embrutecedor. E eu quero fazer a minha alma."

Reflexões Teatrais - Plinio Marcos (... num pequeno circo)

* Plínio Marcos de Barros- nasceu em Santos, em 29 de Setembro de 1935, e faleceu em São Paulo, em 19 de Novembro de 1999.- Mais resultados de www.pliniomarcos.com. Filho de família modesta, não gostava de estudar e terminou apenas o curso primário. Foi funileiro, sonhou ser jogador futebol, serviu na Aeronáutica e chegou a jogar na Portuguesa Santista, mas foram as incursões ao mundo do circo, desde os 16 anos, que definiram seus caminhos. Aos 19 anos já fazia o palhaço Frajola  e pequenos papéis como ator em diversas companhias circenses e de teatro de variedades. Atuou em rádio e também na televisão local em Santos. Não sabia ele, que anos mais tarde se tornaria um grande pensador e dramaturgo incompreendido, vítima da repressão e censura da ditadura militar, que tanto influenciaram e inspiraram o eterno palhaço, Bobo Plin.

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